
Famoso anti-vacinal, o presidente recusou-se a ser imunizado e apelou à população para que não servisse de “cobaia” para as empresas farmacêuticas.
Em uma encruzilhada, um novo sinal azul indica a direção a seguir. “Vacinação drive-in”, lê-se em português, seta apontando para a direita. Mas no final de fevereiro, na entrada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, simbolicamente localizada na Avenida Pasteur, no bairro de Botafogo, sem seringa ou enfermeira no horizonte. E ainda menos vacina.
Uma semana ? No melhor caso. Um mês depois de seu início com estrondo, a campanha nacional de vacinação foi paralisada. No segundo foco global da epidemia, apenas 7 milhões de brasileiros haviam recebido a primeira dose até 21 de fevereiro, apenas 3,3% da população. Nada para impedir, nem mesmo desacelerar a corrida louca do coronavírus, que já matou cerca de 246 mil pessoas no país.
Por falta de doses para administrar, várias cidades, inclusive as cinco capitais regionais – entre elas Rio e Salvador -, tiveram que interromper abruptamente o processo em meados de fevereiro. A administração das primeiras doses não foi feita sem escândalos, com má distribuição de estoques, fraude em filas ou mesmo “falsas injeções”, administradas com seringas vazias, cheias de ar.
Mas é aqui, neste campus arborizado, que uma vasta campanha de imunização contra a Covid-19 deveria ter acontecido todos os finais de semana, dirigida aos cariocas mais velhos, que vinham fazer fila em seu carro. Mas a falta de vacinas terá decidido o contrário: “Já faz vários dias que não vacinamos mais. Volte em uma semana! », Íntimo dos zeladores.
Essa grande desordem chama a atenção ainda mais por ocorrer em um país que foi durante anos referência mundial no combate às epidemias. Em 1973, o Brasil implantou um programa nacional de vacinação, centralizado e pró-ativo, e conseguiu erradicar a poliomielite, o tétano, o sarampo e a rubéola em poucos anos. Melhor ainda: o gigante latino-americano já produz 75% das vacinas que consome. Um motivo de orgulho para os brasileiros, dos quais oito em cada dez afirmam querer ser vacinados contra a Covid-19. Uma das taxas mais altas do mundo.
“Para a gripe H1N1, em 2009, conseguimos administrar 30 milhões de doses da vacina em um mês. Nada a ver com o caos atual … ”, lembra Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Para ela, a responsabilidade pela situação é clara: “Claro, existe a carência global. Mas a causa essencial está do lado da ação do governo de Jair Bolsonaro. “