Ou mata a sede ou lava o Rabicó

Em Curitiba e Região Metropolitana, a falta de água deixou de ser um acidente para virar enredo repetido — daqueles que todo mundo já conhece o final, mas mesmo assim é obrigado a assistir de novo. Em alguns bairros, a cena se repete: sol castigando, torneiras secas e a população tendo que escolher, em tese, se “mata a sede ou lava o Rabicó”. Ironia pura, mas de um cotidiano que não tem nada de engraçado.

Água para matar a sede, tomar banho, lavar roupa e usar na cozinha é indispensável. Não se trata de luxo, comodidade ou favor do poder público, mas de uma necessidade básica, elementar, que deveria ser garantida sem desculpas técnicas e sem empurrar a responsabilidade para depois.

A ausência de água escancara uma questão antiga, mal resolvida e convenientemente esquecida entre um discurso e outro. Curiosamente, cargos na Sanepar também costumam servir como palco político, trampolim de vaidades e currículos eleitorais bem regados — ainda que a água, essa mesma, falte na casa de quem paga a conta em dia.

Fica a pergunta que ecoa pelas cozinhas vazias e banheiros silenciosos: como um candidato ligado a uma empresa que não consegue garantir água regularmente vai pedir o voto de quem passou sede e raiva? Como convencer o eleitor que armazenou baldes, improvisou garrafas e ouviu explicações técnicas enquanto o básico não chegava?

Essa água — digo, esse voto — não passa embaixo da ponte da urna. O eleitor lembra. A sede marca. E a raiva, diferente da água, não evapora fácil. Em tempos de eleição, discursos podem até fluir, mas confiança não se bombeia por decreto. Sem respeito ao cidadão, nenhuma torneira eleitoral vai se abrir.

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