“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” A frase atribuída a Jesus, registrada no Evangelho de Mateus (22:21), continua atual e nos convida a uma reflexão necessária: até que ponto a política está dividindo aquilo que deveria unir as pessoas? A política afastou amigos, colocou irmãos uns contra os outros e dividiu famílias. Agora, o mesmo está acontecendo nas igrejas. Se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de ter igrejas de direita e igrejas de esquerda, enquanto o verdadeiro propósito da fé fica em segundo plano. E, nessa divisão, Satanás acaba encontrando espaço para alimentar a discórdia e travar uma batalha contra aquilo que Deus nos ensinou: o amor, a união, o respeito e a fraternidade.
O Brasil vive um período de decisões, incertezas e desconfiança. Em meio à polarização, muitas vezes, a verdade se confunde com a mentira, a realidade se mistura à manipulação e aquilo que parece verdadeiro pode esconder interesses que nem todos conseguem perceber.
Nesse cenário, a política dos homens parece ter conquistado espaço em lugares que deveriam ser dedicados à fé, à reflexão e à comunhão. Púlpitos e altares, em diferentes comunidades religiosas, também se tornaram espaços de manifestações políticas, enquanto fiéis que compartilham a mesma crença passam a se enxergar como adversários.
Há quem apoie Lula e há quem defenda Bolsonaro. Existem pastores e padres com suas preferências políticas, assim como cristãos que pensam de maneira diferente de suas lideranças religiosas. A diversidade de opiniões faz parte da democracia. O problema começa quando a preferência partidária se transforma em motivo de julgamento, afastamento ou divisão dentro da própria igreja.
Afinal, a fé deve estar acima das disputas eleitorais ou precisa caminhar de mãos dadas com um projeto político?
A igreja tem o direito de discutir os problemas do país, defender valores e orientar seus fiéis. No entanto, é preciso cuidado para que a mensagem religiosa não seja utilizada como instrumento de convencimento partidário, nem para transformar diferenças políticas em disputas entre irmãos.
Quando a política divide os bancos da igreja, quem ganha: a fé ou os interesses dos homens?
Talvez a reflexão mais importante seja esta: é possível defender candidatos diferentes e continuar compartilhando a mesma fé? É possível discordar na política sem perder o respeito, a fraternidade e o amor ao próximo?
Em tempos de tanta polarização, vale recordar que partidos mudam, governos passam e eleições terminam. As relações humanas, porém, podem carregar por muito tempo as marcas de divisões que poderiam ter sido evitadas.
“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Que essa passagem não seja apenas uma frase repetida nos templos, mas um convite à consciência, ao discernimento e ao respeito.
Porque, quando a política ocupa todo o espaço, existe o risco de a fé perder justamente aquilo que deveria preservar: a capacidade de unir pessoas, mesmo quando elas pensam de maneira diferente.