Uma história de vida ! Ana Giassi Fraga Gomes

Uma história de vida, amor, coragem, trabalho e dedicação à família

Dirty road and a Small wood shed with mountains and forest in background

Capítulo 1 — As raízes de uma história

Ana Giassi Fraga Gomes nasceu em 1º de agosto de 1943, em Araranguá, Santa Catarina, embora seu registro de nascimento tenha sido feito em 18 de agosto daquele ano. Filha de Antônio Fraga e Zeferina Giassi Fraga, cresceu em uma família de raízes italianas, ligada à vida simples do campo e aos costumes de uma época em que o trabalho e a união familiar eram essenciais para a sobrevivência.

Entre seus antepassados estavam a nona e nono , Rosa Piazzoli Giassi , Pedro Giassi e a Bisnona Bárbara Albina Molleri  Giassi, nomes que fazem parte da memória de suas origens.

Ana foi batizada na Igreja Católica de Içara, Santa Catarina. Seus padrinhos foram Catarina Laurindo e Vendramini Giassi.

Sua infância aconteceu em um cenário muito diferente do mundo atual. A região conhecida como Rio dos Porcos era praticamente um sertão. A família vivia como agregada na fazenda de gado do senhor Albino Zanetta. Mais tarde, a propriedade foi vendida ao senhor Tavinho e à senhora Lindóca, pais de Adelar e Juvevê.

A vida naquela região era marcada pela simplicidade, pelo trabalho pesado e pela convivência entre as famílias da comunidade. As distâncias eram grandes, os recursos escassos e as crianças aprendiam desde cedo a participar das tarefas domésticas e rurais.

Capítulo 2 — A infância entre brincadeiras e trabalho

Ana cresceu ao lado dos irmãos Raimundo, Serafim e Rosa, enquanto José e Alicio ainda eram bebês. Também participavam das brincadeiras Amalha e Arlindo, filhos de Júlio Ventura.

Mesmo em meio às dificuldades, havia espaço para a alegria infantil. As crianças improvisavam balanços com cordas amarradas às árvores e brincavam de roda-cutia e ovo-choco.

Eram brincadeiras simples, mas que ficaram guardadas na memória de quem viveu aquele tempo. Não havia brinquedos eletrônicos, televisão em todas as casas ou as facilidades que hoje fazem parte da infância. A diversão nascia da imaginação e da convivência.

O trabalho, entretanto, começava muito cedo.

Aos dez anos, Ana já ajudava a família na lavoura de milho, feijão e arroz. Também participava da produção de farinha de mandioca, em uma moenda conhecida como tafona.

A rotina exigia esforço, e cada membro da família precisava contribuir para o sustento da casa.

Seu primeiro calçado foi uma alpargata, aos seis anos. Aos oito, passou a usar tamancos. Esses detalhes revelam a realidade de uma infância em que até mesmo os itens mais básicos eram conquistas importantes.

Ana também desenvolveu, desde pequena, um estilo pessoal que manteve ao longo da vida. Sempre usou vestidos e saias, conservou os cabelos longos e nunca adotou o hábito de usar calças compridas. Também nunca pintou as unhas nem usou batom.

Essas características se tornaram marcas de sua identidade, preservadas ao longo dos anos.

Capítulo 3 — A fé e os caminhos da comunidade

A religiosidade ocupava um lugar importante na vida da família.

Como não possuíam rádio, o cotidiano era marcado pelo trabalho, pelas conversas entre vizinhos e parentes e pelas atividades da comunidade.

Para frequentar a igreja na região do bairro Terceira Linha, onde celebrava o padre Blumenau, Ana acompanhava os pais e os irmãos em caminhadas de aproximadamente oito quilômetros.

A família também participava da festa do padroeiro São Rafael, uma ocasião especial de encontro e convivência.

Naquele tempo, algumas pessoas percorriam os caminhos a pé; outras utilizavam carroças ou charretes puxadas por cavalos. Havia ainda um veículo maior, chamado jardineira, coberto por lona e com pequenas janelas nas laterais. Puxado por dois cavalos, transportava aproximadamente seis a oito pessoas.

A vida era simples, mas as tradições religiosas e comunitárias ajudavam a manter os laços entre as famílias.

Essas experiências formaram parte da personalidade de Ana e acompanharam sua trajetória, mesmo quando a vida a levou para outras cidades.

Capítulo 4 — Um encontro que mudaria o destino

Aos 15 anos, Ana conheceu Mariano Gomes, nascido em 20 de agosto de 1937, em União da Vitória, Paraná.
Foto: Reprocução

O primeiro encontro aconteceu na mercearia de Antônio Cordeiro Gomes, futuro cunhado de Ana. Ela costumava ir ao estabelecimento para comprar produtos essenciais para a família, como açúcar, farinha, banha e sal.

Certo dia, Mariano estava encostado no balcão quando Ana chegou.

— Bom dia — disse ela.

Ele respondeu à saudação. Em seguida, perguntou se poderia fazer uma visita à casa da jovem.

Naquele período, Mariano trabalhava na construção de estradas e morava na região da Serra do Macuco, nas proximidades de São Miguel do Iguaçu, no Paraná.

Posteriormente, sua família comprou terras em Jardinópolis. Cerca de um ano depois de conhecer Ana, já morando em Jardinópolis, Mariano ingressou no Departamento de Estradas de Rodagem, o DER.

O primeiro contato não resultou imediatamente em namoro. O destino, porém, preparava um novo encontro.

Capítulo 5 — O pedido de namoro e a resistência do pai

O segundo encontro aconteceu na casa do senhor Antônio Vindki, durante uma festa de aniversário.

Mariano, então com 21 anos, foi direto ao assunto:

— Quer namorar comigo, menina?

Ana respondeu que sim, embora ainda não compreendesse completamente o significado e as responsabilidades de um namoro.

No domingo seguinte, Mariano foi à casa da jovem. Antônio Fraga, pai de Ana, já o conhecia das visitas à mercearia. O visitante foi recebido com conversa e roda de chimarrão, enquanto Ana ajudava a mãe nos afazeres domésticos.

No domingo seguinte, Mariano voltou. Dessa vez, pediu formalmente a autorização para namorar Ana.

A resposta do pai foi negativa.

Ana tinha apenas 15 anos, e Antônio não autorizava o relacionamento. Segundo a lembrança familiar, ele teria dito, em tom grosseiro:

— Pra você, Ana, nunca terá idade!

Mariano respondeu:

— Tudo bem, senhor Fraga.

Foi embora sem discutir, mas não desistiu de conquistar a jovem.

Havia ainda uma circunstância familiar que talvez ajude a compreender a resistência de Antônio. Antes do interesse de Mariano, o pai de Ana mantinha conversas com João Maria Borges, envolvendo a possibilidade de ceder a mão da filha em casamento em troca de um corte de madeira para construir uma casa.

É possível que essa negociação, somada à pouca idade de Ana e às preocupações do pai, tenha influenciado sua decisão. Esse detalhe, preservado na memória familiar, faz parte do contexto em que a história de Ana e Mariano começou a ganhar novos rumos.

Capítulo 6 — Cartas secretas e um plano de fuga

Mariano encontrou uma maneira de manter contato com Ana: as cartas.

Como a jovem ainda não era alfabetizada, Catarina tornou-se a intermediária da correspondência. Ana a encontrava quando ia buscar leite na casa do senhor Antônio Vindki.

Mariano contou a Catarina que seu pedido de namoro havia sido recusado pelo pai de Ana e confessou que pretendia namorar a jovem por meio de cartas.

A primeira mensagem continha uma proposta ousada: ele tinha um plano de fuga e queria saber se Ana aceitava.

Catarina leu a carta para Ana e ajudou a redigir uma resposta positiva.

Na segunda correspondência, Mariano marcou a data da fuga: 24 de maio. Antes disso, pediu licença do trabalho por quinze dias para colocar o plano em prática.

A fuga aconteceu durante a noite, no início do dia 25 de maio.

Ana e Mariano caminharam aproximadamente vinte quilômetros até Medianeira. De lá, seguiram de ônibus para Cascavel e, depois, para Toledo, onde ficaram na casa do irmão de Mariano, João Cordeiro Gomes.

O irmão de Ana, Raimundo, participou do plano e deu cobertura à irmã.

Quando amanheceu, Antônio chamou Ana para tratar das galinhas. Como não recebeu resposta, chamou novamente. Foi então que Raimundo revelou:

— A Ana está bem longe daqui!

A frase anunciava que a família enfrentaria uma situação inesperada.

Antônio procurou Júlio Gomes, que sabia do paradeiro do casal. Antes de revelar onde os jovens estavam, Júlio exigiu a garantia de que eles não sofreriam consequências.

Antônio foi até Toledo e registrou uma queixa na delegacia. Durante uma visita ao casal, trouxe os dois de volta e, posteriormente, concordou com o casamento.

A fuga, que começou como uma decisão arriscada de dois jovens apaixonados, acabou se tornando um dos episódios mais marcantes da história familiar.

Capítulo 7 — O casamento sem festa

 

Ana e Mariano se casaram na Igreja de Flor da Serra, no Paraná.

Não houve festa, grandes comemorações ou luxo. Depois do casamento, a prioridade era sobreviver, trabalhar e construir um lar.

Ana tinha apenas 16 anos, próxima de completar 17, quando teve o primeiro filho, Valdir Gomes e depois Ivo Gomes. no total foram 8 filhos, sendo 5 homens e três mulheres.

O casal passou a viver nas terras do pai de Mariano, onde começou a construir sua família.

Mariano trabalhava como funcionário público do DER, e seu salário era a principal fonte de sustento da casa. Além do emprego, também abria poços para complementar a renda.

Ana dedicava-se à criação dos filhos, aos afazeres domésticos e à lavoura. Cultivava sua própria roça, plantando e colhendo alimentos para ajudar a manter a família.

Nos fins de semana, Mariano também participava do trabalho na terra.

Era uma rotina exigente. Enquanto ele cumpria suas obrigações profissionais, Ana enfrentava o trabalho doméstico e rural, cuidando para que nada faltasse aos filhos dentro das possibilidades da família.

Não havia grandes confortos, mas havia disposição para seguir adiante.

Capítulo 8 — Uma decisão que mudaria o futuro da família

Vila Nossa Senhora da Luz completa 50 anos neste sábado - Prefeitura de Curitiba

O ano de 1982 marcou uma mudança importante na trajetória de Ana e Mariano.

Naquele ano, Mariano viajou a Curitiba para visitar os filhos Ivo e Valdir, que moravam em pensionatos na capital paranaense.

Durante a visita, percebeu as dificuldades enfrentadas pelos filhos e começou a pensar em uma maneira de ajudá-los a construir um futuro melhor.

Ao retornar, conversou com Ana e explicou que precisavam ajudar os filhos que já estavam na capital. A mudança também representaria uma oportunidade para os filhos menores, que poderiam crescer mais próximos dos irmãos e ter acesso a novas possibilidades, uma vez que a estrada dom Colono havia sido fechada, obstruindo o progresso da região.

A decisão foi tomada: a família deixaria Jardinópolis e seguiria para Curitiba.

O imóvel que possuíam em Jardinópolis foi vendido para viabilizar a mudança. Com os recursos obtidos, a família iniciou uma nova etapa da vida.

Primeiro, passou a morar na Vila Oficinas, em Curitiba.

Mais tarde, o casal comprou um terreno e construiu uma casa no bairro Ana Terra, no município de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba.

Ali, Ana e Mariano estabeleceram suas raízes e se tornaram uma das famílias pioneiras do bairro.

A mudança representou muito mais do que trocar de endereço. Foi uma decisão tomada pensando nas próximas gerações, na união familiar e nas oportunidades que a capital e sua região metropolitana poderiam oferecer aos filhos.

A casa no Ana Terra passou a representar uma nova conquista: um lugar construído com o esforço de uma vida inteira, onde a família poderia se reunir e continuar escrevendo sua história.

Capítulo 9 — A mulher que dedicou a vida à família

Ana construiu sua trajetória principalmente como dona de casa, mãe e trabalhadora rural.

Durante muitos anos, sua rotina foi dividida entre o cuidado com os filhos, as tarefas domésticas e o trabalho na lavoura. Pouco antes do falecimento de Mariano, em 1989, ela também chegou a trabalhar como diarista em casas de família e em uma escola particular.

Com a morte do marido, precisou continuar trabalhando por algum tempo. A viuvez trouxe uma nova realidade, com responsabilidades e desafios que exigiam força para seguir adiante.

Segundo o relato familiar, Ana permaneceu fiel à memória do esposo.

Em determinada ocasião, recebeu um convite para iniciar um namoro. Diante da situação, decidiu abandonar o emprego e não voltou sequer para receber o acerto trabalhista.

Esse episódio ficou marcado na memória da família como uma demonstração das convicções pessoais de Ana e da maneira como escolheu viver sua viuvez.

Sua trajetória representa a experiência de muitas mulheres de sua geração: mulheres que trabalharam dentro e fora de casa, criaram os filhos em meio às dificuldades e sustentaram suas famílias sem buscar reconhecimento público.

Ana enfrentou as mudanças de cidade, a criação dos filhos, a adaptação à vida urbana e, posteriormente, a perda do companheiro com quem havia compartilhado tantos anos.

A vida seguiu, e ela continuou sendo uma referência para a família.

Capítulo 10 — As despedidas dos pais e a memória das origens

Os anos também trouxeram as despedidas de Antônio Fraga e Zeferina Giassi Fraga, pais de Ana.

Ambos faleceram muitos anos depois. Zeferina morreu em Medianeira, no Paraná, enquanto Antônio faleceu em Morretes, também no Paraná.

As mudanças de cidade, as distâncias e as transformações da vida não apagaram as origens de Ana.

A infância no interior catarinense, a convivência com os pais e irmãos, as caminhadas até a igreja, as brincadeiras sob as árvores e o trabalho na lavoura continuaram fazendo parte de sua história.

Essas lembranças ajudam a compreender a mulher que ela se tornou: alguém cuja trajetória começou em uma realidade rural simples e atravessou diferentes etapas da história do Paraná e de sua região metropolitana.

As raízes permaneceram presentes na memória familiar, acompanhando a construção de uma vida que se estendeu por várias gerações.

Capítulo 11 — Filhos, netos e bisnetos: o legado de uma família

A união de Ana e Mariano deu origem a uma família que se estendeu por filhos, netos e bisnetos.

Entre os filhos mencionados no relato familiar estão:

  • Valdir Gomes

  • Ivo Gomes

  • Sebastião Gomes Sobrinho

  • Ivan Gomes

  • Ivan Nelci Gomes

  • Cecília Gomes

  • Marli Gomes e Sueli de Lurdes Gomes

A relação original também menciona Cecília Gomes uma segunda vez. Esse ponto poderá ser conferido com a família para que todos os nomes sejam registrados corretamente.

A lista de netos inclui Loreni, Mônica, Ane Carolina, Ana Rafaela, Graziela, Franciele, Elizandra, Lauane, Kaiane, Ariadene, Marina, Rodrigo, Kauã, Felipe, Henrique, Rafael, Thafarel, Gilvan, Leandro e Fernando.

Entre os bisnetos citados estão João Miguel, Renato, Kauã Felipe, Davi Felipe, Valentina, Manu, Lucas, Caio e João.

Cada nome representa uma nova etapa dessa história. São pessoas que carregam, de diferentes maneiras, parte das origens, dos costumes e das lembranças de Ana e Mariano.

O que começou em uma região rural de Santa Catarina, entre lavouras, caminhos de terra e caminhadas até a igreja, transformou-se em uma família que construiu sua trajetória no Paraná, passando por Jardinópolis, Curitiba e Colombo.

A casa do bairro Ana Terra simboliza uma parte importante dessa caminhada: o resultado de decisões tomadas para aproximar os filhos, oferecer novas oportunidades e construir um futuro para as gerações seguintes.

A história de Ana e Mariano, portanto, não pertence somente ao passado. Ela continua presente na memória daqueles que descendem do casal.

Epílogo — Uma vida que permanece na memória

A história de Ana Giassi Fraga Gomes não é feita de riqueza material, grandes festas ou facilidades. É uma história de trabalho, simplicidade, decisões difíceis, amor e compromisso com a família.

Da menina que brincava sob as árvores no Rio dos Porcos à mulher que criou os filhos, trabalhou na roça e enfrentou a viuvez, existe um fio que atravessa toda a sua trajetória: a dedicação à família.

O encontro com Mariano, as cartas secretas, a fuga para Toledo, o casamento sem festa, os anos de trabalho e a mudança para Curitiba em 1982 são capítulos de uma vida marcada por escolhas que influenciaram o destino de muitas pessoas.

A construção da casa no bairro Ana Terra, em Colombo, representa uma das conquistas dessa caminhada. Ali, a família encontrou um novo lugar para crescer, criar vínculos e preparar o caminho das gerações seguintes.

A morte de Mariano, em 1989, encerrou uma etapa importante da vida de Ana, mas não apagou a história que os dois construíram juntos.

Ela permaneceu nos filhos, nos netos, nos bisnetos e nas lembranças que atravessam o tempo.

Porque uma vida não é medida apenas pelos anos vividos, mas também pelas marcas deixadas nas pessoas que vieram depois.

E é assim que a história de Ana permanece: na memória da família, nas histórias contadas e recontadas, nas raízes que nunca se perderam e na descendência que continua a escrever novos capítulos.

Uma história que começou no sertão catarinense, enfrentou as dificuldades de uma época e encontrou no Paraná um lugar para construir um legado que atravessa gerações.

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